Cientistas criam adesivo que monitora bebê no útero em tempo real


Um adesivo ultrassônico capaz de monitorar continuamente o bebê dentro do útero foi desenvolvido por pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido e pode representar um avanço no acompanhamento de gestações de alto risco.

Chamado de “UPatch”, o dispositivo conseguiu registrar, em tempo real, o fluxo sanguíneo fetal e do cordão umbilical durante várias horas seguidas, mesmo com a movimentação da mãe e do bebê.

A tecnologia foi apresentada em um estudo publicado em 26 de maio na revista científica Nature Biotechnology. O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego, da Universidade Stanford e Oxford.

Atualmente, os exames de ultrassom realizados durante a gravidez fornecem avaliações pontuais da saúde fetal e dependem de profissionais especializados para operar os equipamentos. Segundo os autores, o novo sistema foi criado para oferecer um monitoramento contínuo e mais autônomo, principalmente em casos de maior risco obstétrico.

Como funciona o UPatch

O dispositivo é um adesivo flexível colocado sobre o abdômen da gestante. Conectado por cabo a um sistema eletrônico externo, o equipamento utiliza ultrassom doppler para captar imagens e medir o fluxo sanguíneo fetal em tempo real.

Um dos principais desafios enfrentados pelos pesquisadores foi desenvolver uma tecnologia capaz de continuar funcionando durante os movimentos constantes do bebê e do cordão umbilical.

Para resolver o problema, a equipe criou algoritmos de rastreamento automático que identificam e acompanham os vasos sanguíneos fetais ao longo do exame. No estudo, os pesquisadores compararam as medições obtidas pelo UPatch com aparelhos clínicos convencionais de ultrassom em 62 gestações.

Segundo o artigo, os resultados apresentaram “boa concordância” com os equipamentos já utilizados na prática médica. Além do monitoramento do fluxo sanguíneo, o sistema também conseguiu captar estruturas anatômicas fetais usadas em avaliações obstétricas, incluindo medições relacionadas ao crescimento do bebê.

Monitoramento contínuo em gestações de risco

Após a fase inicial de validação, os pesquisadores utilizaram o dispositivo para monitoramento contínuo entre uma e seis horas em 52 gestantes. Entre elas, havia casos de pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, restrição de crescimento fetal e diabetes gestacional.

De acordo com o estudo, o monitoramento contínuo permitiu observar alterações dinâmicas no fluxo sanguíneo fetal ao longo do tempo, incluindo oscilações temporárias que poderiam passar despercebidas em exames convencionais realizados apenas em momentos isolados.

Os pesquisadores também relataram um caso de pré-eclâmpsia em que o dispositivo identificou alterações importantes relacionadas à restrição de crescimento intrauterino.

Assim, após avaliação clínica complementar e intensificação do acompanhamento médico, essa gestante foi submetida a uma cesariana quatro dias depois para evitar o risco de natimorto.

A restrição de crescimento intrauterino ocorre quando o bebê não cresce adequadamente dentro do útero, muitas vezes por alterações na placenta que comprometem o fornecimento de oxigênio e nutrientes. Em situações graves, a condição pode aumentar o risco de complicações durante a gestação e o parto.

Apesar dos resultados considerados promissores, os próprios autores destacam que o UPatch ainda está em fase experimental e não foi aprovado para uso clínico rotineiro. Atualmente, o equipamento ainda depende de componentes externos conectados por fios e requer posicionamento inicial com auxílio do ultrassom convencional.

A expectativa da equipe é desenvolver futuramente uma versão mais portátil, permitindo maior mobilidade para as gestantes e ampliando o monitoramento fora do ambiente hospitalar.



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