Cavaleiros contra regra que proibia sangramento de cavalos – 11/12/2025 – Esporte


Tendo como pano de fundo o Palácio de Versalhes, Pedro Veniss, um cavaleiro brasileiro, conduziu seu cavalo Nimrod de Muze Império Egipcio, um warmblood, por um percurso impecável de saltos em uma classificatória olímpica, praticamente garantindo ao seu país uma vaga na competição por equipes dos Jogos Olímpicos de 2024, na França.

Mas, ao parar o cavalo para a inspeção sanitária de rotina momentos depois, um oficial da competição apalpou o animal e retirou uma mão enluvada de branco do flanco do animal, manchada com sangue.

O cavalo havia sofrido um arranhão e, portanto, violava uma regra rígida e antiga que desqualifica qualquer cavaleiro cujo animal sangre por qualquer motivo. Veniss —e, por consequência, toda a equipe olímpica brasileira— foi imediatamente eliminada da competição.

Em 1º de janeiro, essa regra —conhecida como “regra do sangue”— será significativamente flexibilizada para o hipismo, após um processo de revisão de um ano no qual a FEI (Federação Equestre Internacional), que rege o esporte, decidiu mudar da desclassificação imediata para cavalos ensanguentados para um sistema que depende da discrição dos comissários, com a possibilidade de advertências semelhantes a cartões amarelos e suspensão para infratores reincidentes.

“Este processo foi inclusivo, envolvendo consultas com todas as partes interessadas relevantes —incluindo atletas, federações nacionais e especialistas de todo o esporte”, escreveu Áine Power, diretora executiva de esportes e jogos da federação, em um e-mail. “A decisão final reflete o que a FEI acredita ser o melhor para o cavalo e para o aprimoramento do esporte a longo prazo.”

A decisão, anunciada este ano, causou grande repercussão no mundo equestre. Mais de 100 mil pessoas assinaram uma petição para impedir a mudança, argumentando que ela representa uma leniência que permite maus-tratos a cavalos. Por outro lado, alguns dos principais atletas do esporte se manifestaram publicamente a favor da mudança, alegando que a antiga regra sobre sangue era draconiana e tratava injustamente pequenos cortes e arranhões acidentais da mesma forma que maus-tratos que causam sangramento.

A revogação da regra parece, para alguns, uma contradição em um esporte que, há anos, vem reforçando a proteção aos cavalos após escândalos de maus-tratos —a estrela britânica do adestramento, Charlotte Dujardin, retirou-se das Olimpíadas depois de ser flagrada em vídeo chicoteando repetidamente um cavalo e suspensa pela FEI, para citar um exemplo notório.

Esses críticos da mudança na regra acusam a federação de ceder à pressão de figuras influentes e com muito dinheiro para afrouxar as regras, e temem que a imagem negativa prejudique a viabilidade do esporte equestre em geral, em um momento em que a aprovação pública do trabalho com animais, de circos a passeios de charrete, caiu drasticamente.

A mudança é “um grande retrocesso”, escreveu Andrew McLean, consultor oficial de bem-estar equino da FEI, na publicação especializada Horse Sport, afirmando que a federação internacional contrariou a recomendação de seu grupo de defesa dos animais. “Para mim, nunca houve um exemplo mais bizarro e estúpido de como cavar a própria cova.”

Para outros, como o atleta olímpico brasileiro Rodrigo Pessoa, que perdeu sua vaga na competição olímpica por equipes devido ao que aconteceu com Nimrod, trata-se de uma mudança prudente, que leva em consideração a realidade de se trabalhar em equipe com atletas equinos, e não equipara uma lesão acidental à crueldade.

“Ao ser eliminado dos Jogos Olímpicos, foram quatro anos de trabalho, de dedicação, de investimento que foram por água abaixo”, disse Pessoa. “A consequência foi grande demais comparada à infração, não foi equitativa.”

De aproximadamente 340 mil baterias nos últimos 12 meses, até outubro, houve 101 eliminações relacionadas a sangramento, ou menos de 3%, segundo dados compilados pela FEI; quatro cavaleiros foram eliminados mais de uma vez.

Permitir que os oficiais da competição tenham mais discricionariedade para determinar se uma lesão foi acidental —por exemplo, para considerar se um corte na lateral do cavalo foi um arranhão incidental ou um ferimento causado pelo uso excessivo de esporas, ou se, no caso de sangue na boca, o cavalo mordeu a própria língua, em vez de ter o cavaleiro usando o freio com muita força— disse Pessoa, não significa permitir crueldade, mas sim promover a justiça.

“Algumas pessoas estão dizendo: ‘Ah, eles revogaram a regra para poderem machucar os cavalos’ —essas são pessoas que não entendem o esporte e não entendem como essas coisas acontecem”, disse Pessoa.

Claudia Sanders, editora da revista Dressur-Studien, uma publicação equestre, que criou a petição no Change.org contra a mudança na regra, não contesta que a regra antiga tratava acidentes e maus-tratos da mesma forma. Para ela, esse era o ponto: “Somos responsáveis pelo animal —mesmo que seja um pequeno acidente, devemos impedi-lo porque os cavalos não conseguem se defender sozinhos”, disse ela.

“A reputação e o futuro do esporte dependem de práticas éticas que respeitem nossos parceiros equinos e reconheçam suas contribuições e limitações”, escreveu Sanders em sua petição. “Esportes equestres não devem ser um esporte sangrento.”

Para alguns cavaleiros, a indignação pública ignora que, de certa forma, as novas regras são mais rigorosas, afirmou Eleonora Moroni Ottaviani, diretora do International Jumping Riders Club.

As novas regras incluem uma disposição que suspende o cavaleiro reincidente, em vez de simplesmente eliminá-lo da bateria da competição. As novas regras também exigem que o júri, em consulta com um veterinário, libere um cavalo lesionado antes que ele possa competir novamente, algo que não era exigido antes. Para as modalidades de adestramento e concurso completo, em que os cavaleiros saltam obstáculos naturais, as regras relativas a sangue permanecem as mesmas.

“Sangramento e sangue não devem existir em nosso esporte, mas não consideramos a sanção proporcional” para o salto, disse Ottaviani. A nova regra, segundo ela, leva em consideração os acidentes, ao mesmo tempo que é mais rigorosa com os agressores. “Quando se trata de abuso do cavalo, temos que processar o infrator, e o cavaleiro tem que ficar fora do nosso esporte.”



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