Cabecear mata neurônios – 13/11/2025 – Suzana Herculano-Houzel


Eu sei que mexer com o esporte nacional é cutucar vespeiro, mas a neurociência é clara: as cabeceadas repetidas do futebol progressivamente acabam com neurônios no cérebro, e um novo estudo aponta os mecanismos envolvidos.

A equipe de Jonathan Cherry, da Universidade Boston, nos EUA, teve acesso a amostras de córtex cerebral de 28 adultos entre 20 e 51 anos de idade, doados pelas famílias após sua morte a dois bancos de cérebros. Tais bancos são instituições que possibilitam cada vez mais estudos sobre desenvolvimento e função normal e anormal do cérebro humano, sem os quais ficamos limitados a nos comparar a animais de laboratório.

Ainda assim, são os animais de laboratório que abrem caminho para a saúde humana. Graças a camundongos, sabemos que pancadas na cabeça –a versão light das vassouradas com que humanos costumavam matar roedores em casa– causam estiramento das fibras nervosas e rompimento imediato da barreira hemato-encefálica que mantém o tecido cerebral protegido do sangue, que tanto é vital quanto tóxico para os neurônios. Mesmo que não sejam graves o suficiente para causar problemas imediatos como confusão mental ou dor de cabeça, sem os quais não há diagnóstico de concussão, essas alterações causadas por pancadas na cabeça têm o potencial de deixar sequelas quando repetidas sem dar chance ao cérebro de se recuperar.

Esta é a conclusão do novo estudo, recém-publicado na revista Nature, que comparou o cérebro de 11 indivíduos que haviam sido jogadores de futebol americano e tinham diagnóstico de encefalopatia traumática, e de outros oito indivíduos sem experiência no esporte, com o grupo de interesse: nove adultos, de entre 27 e 50 anos de idade, que haviam sido praticantes do esporte, mas não tinham diagnóstico neurológico.

Futebol americano não tem cabeceada na bola, mas tem choques frequentes e desacelerações súbitas do corpo todo que causam impacto do cérebro contra o crânio semelhante ao das cabeceadas do nosso futebol, como vários estudos já mostraram. As pancadas no cérebro são portanto comparáveis, e, a longo prazo, os riscos à saúde mental, incluindo a probabilidade aumentada de demência, são os mesmos entre os dois esportes.

O novo estudo sugere como isso acontece. O problema provavelmente começa com aquele minirrompimento da barreira hemato-encefálica causado pela pancada, sobretudo no fundo dos sulcos do cérebro, mais vulnerável por razões ainda desconhecidas mas provavelmente mecânicas, causando inflamação e privando de energia os neurônios no local. Se as lesões ocorrem uma em cima da outra, neurônios morrem, e seus restos mortais são removidos por células microgliais reativas, que são células do sistema imunitário residentes no cérebro.

Quanto mais anos de prática de futebol, e portanto de exposição a pancadas do cérebro contra o crânio, maior a proporção de células microgliais reativas e menos neurônios os cientistas encontraram no fundo dos sulcos do córtex cerebral, mesmo antes de haver sinais de deposição de peptídeos anormais que são diagnósticos de doença neurodegenerativa. A demência pode tardar, mas os danos ao cérebro estão lá, acumulando-se a cada nova pancada.

O que fazer com esse conhecimento, isto escapa à alçada desta coluna. Só me cabe fazer pensar durante a próxima partida de futebol.

Referências

Butler MLMD, Pervaiz N, Breen K, Calderazzo S, Ypsilantis P, Wang Y et al. (2025). Repeated head trauma causes neuron loss and inflammation in young athletes. Nature 647, 228-237.

Tagge CA, Fisher AM, Minaeva OV, Gaudreau-Balderrama A, Moncasster JA, Zhang X-L et al. (2018). Concussion, microvascular injury, and early tauopathy in young athletes after impact head injury and an impact concussion mouse model. Brain 141, 422-458.


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