Atletas pelo Brasil luta por pacto nacional pelo esporte – 29/05/2026 – Esporte


No dia 1º de junho de 2006, atletas e ex-atletas do porte de Ana Moser, Raí, Hortência, Joaquim Cruz e Cafu se uniram com o objetivo de universalizar a prática do esporte nas escolas e incrementar sua presença entre os brasileiros por meio da criação de um Sistema Nacional de Esporte. Duas décadas depois, o grupo comemora muitas conquistas importantes, mas ainda vê um longo caminho pela frente para tornar o seu sonho inicial realidade.

O grande objetivo é criar um pacto nacional, consolidando um compromisso coletivo entre os diferentes níveis de governo e a sociedade para transformar o esporte em um direito universal, promovendo inclusão e equidade em todo o país.

A organização sem fins lucrativos Atletas pelo Brasil —inicialmente criada como Atletas pela Cidadania— possui atualmente 60 membros fixos e uma estrutura administrativa que atua para ter um representante em toda discussão em que o esporte seja parte da agenda, seja em Brasília ou em qualquer outro estado.

Desde o início, o grupo desejava demonstrar que o esporte envolve, além do condicionamento físico, dimensões do pensamento, do sentimento e das relações entre as pessoas, além das ambientais, culturais e econômicas.

Nesses 20 anos, uma das conquistas mais festejadas foi tornar permanente e ampliar a Lei de Incentivo ao Esporte. A ONG teve papel central na articulação política que levou à aprovação da legislação, mobilizando parlamentares, reunindo-se com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, participando de audiências públicas e coordenando uma campanha nacional que reuniu mais de 450 organizações esportivas e 5.000 apoiadores.

O projeto foi aprovado pela Câmara e pelo Senado em apenas dois dias. Além de tornar a política permanente, a nova legislação ampliou de 2% para 3% (a partir de 2028) o limite de dedução do imposto de renda que empresas podem destinar aos projetos sociais, aumentado os recursos ao setor do esporte educacional e ampliando os benefícios à população.

Outro feito do grupo foi a inclusão de temas voltados às práticas esportivas nos planos nacionais de Educação e Saúde.

“Não existia metas estruturantes para educação física e atividade motora no Plano Nacional de Educação. Conseguimos aprovar no relatório temas mais voltados à educação integral, o que facilita para abrir financiamentos e direcionar recursos”, diz Ana Moser, presidente-executiva da Atletas pelo Brasil, uma das maiores jogadoras de vôlei de todos os tempos e que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra do Esporte, entre janeiro e setembro de 2023.

Ela afirma que um dos principais problemas para tornar o esporte universal no país é a falta de estratégias, principalmente na esfera municipal.

“Não se tem discussão da importância da atividade física para a saúde. Se conversarmos com pessoas ricas, todas fazem atividades, mas no âmbito público ninguém sabe como fazer porque não tem estratégia para isso”, ela completa, enfatizando que é justamente aí que entra a Atletas pelo Brasil, ajudando as prefeituras do interior do país a criarem suas políticas e estruturas esportivas.

Pensando nesse trabalho, em dezembro passado, a organização lançou em Brasília a “Agenda Sistêmica do Esporte e da Atividade Física”, um documento técnico que reúne propostas para estruturar uma política pública integrada de esporte no Brasil, seguindo as diretrizes da Lei Geral do Esporte, aprovada pelo Congresso Nacional em 2022 e que criou o Sinesp (Sistema Nacional do Esporte), responsável pela gestão e promoção de políticas públicas para o esporte.

A agenda foi construída com a participação de mais de 35 especialistas das áreas de esporte, saúde e educação, além de parcerias com Unesco e ONU Mulheres. O documento é a base do Movimento Mais Esporte, iniciativa que busca garantir o direito à prática esportiva para toda a população.

De caráter apartidário, a agenda tem a meta de propor medidas estruturais com potencial de transformar a realidade brasileira em até três mandatos de governo, ou seja, 12 anos.

Na elaboração do documento, os especialistas tomaram por base os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2015, segundo a qual 62% da população brasileira com 15 anos ou mais não praticou esporte ou qualquer atividade física no tempo livre naquele ano.

Já segundo os dados do Censo da Educação Básica 2024, 61% das unidades escolares não possuíam quadra esportiva, 50% não contavam com pátio descoberto e 34% não dispunham de material para a prática esportiva.

Com essas informações, a agenda propõe soluções em dois blocos: eixos estruturantes e dimensões do esporte.

Os eixos estruturantes dizem respeito às bases institucionais, técnicas e financeiras que sustentam qualquer política pública: governança, gestão e financiamento. Já as dimensões do esporte traduzem, na prática, como essas políticas se materializam ao longo da vida das pessoas, respeitando seus diferentes ciclos, contextos e necessidades.



Essa é uma iniciativa única no mundo, de atletas e modalidades diferentes lutando por novos horizontes. Atletas com seus projetos individuais se juntaram para criar projetos comunitários e de advocacy que impactam o país inteiro

Três dimensões foram determinadas: esporte para crianças, adolescentes e jovens; esporte para adultos e idosos; e esporte para o alto rendimento.

O documento explica cada eixo e cada dimensão, indicando os pontos que devem ser trabalhados, e como, para serem cumpridos.

“Essa é uma iniciativa única no mundo, de atletas e modalidades diferentes lutando por novos horizontes. Atletas com seus projetos individuais se juntaram para criar projetos comunitários e de advocacy que impactam o país inteiro”, diz Raí, criador da Fundação Gol de Letra e diretor da Atletas pelo Brasil.

A ex-ginasta Daiane dos Santos, uma das associadas mais recentes da ONG, destaca que a luta do grupo tem como bordão “O Esporte para Todos” e cita o exemplo da campeã olímpica Rebeca Andrade para explicar o conceito.

“É um movimento conjunto para unir boas ideias e chegar a quem pode fazer as coisas acontecerem. Como uma Rebeca chega a ser campeã olímpica sem o esporte para todos? Hoje a gente mostra a força que o esporte tem, como o esporte pode, sim, unir todos os brasileiros.”



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