As viagens de Louise Sutherland pelo mundo de bicicleta – 22/12/2025 – No Corre


Aos 25 anos, a enfermeira neozelandesa Louise Sutherland comprou uma bicicleta urbana usada sem marchas em Londres e decidiu partir com ela para a Cornualha, a 450 km de distância, mas o vento contrário só a deixou seguir até Reading, a 70 km da capital inglesa, quando então inverteu a rota rumo Dover, para atravessar o Canal da Mancha.

Ela iniciava ali, primeiro por Calais, na França, e daí por Bélgica, Holanda, Alemanha, Suíça, Itália, a então Iugoslávia e Grécia, uma viagem que a levaria ainda para os países do Oriente, a começar por Israel, depois pela Jordânia, Líbano, Iraque, Índia.

O ano era 1951.

Louise dormia em alojamentos, casas de eventuais conhecidos e em instituições de caridade nas quais se voluntariava. Ao longo de sua jornada, ouviu de muitos interlocutores palavras de perplexidade por viajar sozinha.

“Estava cansada de tentar convencer as pessoas de que viajar por aí podia ser divertido. Que estar sozinha era minha melhor proteção”, ela escreve no livro “Eu Sigo o Vento“, lançado agora no Brasil pela editora Ediventura.

Louise publicou “Eu Sigo” no Reino Unido em 1960, mas os brasileiros só foram conhecê-la melhor em 1978, quando decidiu percorrer a nascente Transamazônica, também de bicicleta, enfrentando quilômetros de lamaçais quase intransponíveis e hospedando-se onde fosse possível, normalmente casas muito simples de moradores que a acolhiam.

Sua bicicleta agora ganhava marchas, o que parecia lhe incomodar um pouco, e no livro que ela também escreveria sobre essa experiência, “Transamazônica – A Viagem Impossível”, continuou a registrar discrepâncias entre a realidade que vivia e aquela imaginada por seus circunstantes.

Ao descrever um episódio num rincão do Acre, em que um grupo numeroso de pessoas desconhecidas aparece no meio da noite numa única casa à beira da estrada em que ela também estava hospedada, e que é marcado pela generosa acolhida dos anfitriões, pergunta: “Tentei imaginar a confusão que seria se isso tivesse acontecido na casa de alguém no mundo civilizado. Isso me fez pensar sobre qual é a verdadeira definição da palavra ‘civilizado’”.

Louise ainda voltaria ao Brasil alguns anos depois para legar à cidade de Humaitá (AM) uma clínica móvel para atendimento à população mais vulnerável. A estrutura foi viabilizada com dificuldade com a receita de seus livros e doações de empresas e de filantropos mobilizados por ela.

Em minha última coluna, contei a história de dois viajantes homens, Guilherme Cavallari, que atravessou sozinho, de bike, parte dos Andes, da Patagônia e da Mongólia; e Carlos Dias, que seguiu a pé por toda a extensão da Transamazônica nos últimos meses.

Duas leitoras viram ali algo interditado às mulheres. Daniela Franco disse que “se fossem mulheres, já teriam sido mortas (como foi Julieta Hernández)”.

De fato, o horrendo assassinato há exatos dois anos no norte do Amazonas de Julieta, artista venezuelana que pedalava havia quatro anos e estava a poucos quilômetros da fronteira de seu país, tende a liquidar qualquer esperança na repetição de histórias como a de Louise.

Se Daniela está mesmo certa e seu pessimismo expressa a realidade, que as notáveis viagens de Louise restem ao menos como belos contos de Natal, dignas de ser relembradas uma vez por ano.


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