As corridas em aeroportos – 01/12/2025 – No Corre


A despeito da profusão de coachs, instrutores e palpiteiros de corrida, correr é uma atividade simples, intuitiva, que dispensa a mediação desses exegetas. Tampouco requer qualquer aparato, inclusive tênis com preço de quatro dígitos.

A corrida prescinde ainda de outra coisa: provas, desafios e, eis uma palavra que me dá arrepios, metas. No entanto, e isso não é de surpreender, são justamente os distintos circuitos de provas e desafios que crescem a bandeiras despregadas.

Em busca de diferenciação (e, quem sabe, de uma justificativa para uma inscrição mais cara), organizadores testam outros formatos. Proporcionar novas experiências para o corredor é chave, daí que correr, por exemplo, em aeroportos, nas pistas outrora exclusivas de aviões, virou hit.

O negócio não é novo, no Brasil vem desde antes da pandemia, mas ganhou octanagem neste ano quando a Motiva, antiga CCR, concessionária de diversos terminais pelo Brasil, incrementou seu circuito.

Em 2025 foram oito provas em aeroportos como o da Pampulha, em Belo Horizonte, Palmas, no Tocantins, e Joinville, em Santa Catarina. A última, de que participei como convidado, foi na madrugada deste domingo (30) no aeroporto Afonso Pena, na região metropolitana de Curitiba. Outros concessionários também promovem suas provas, como a GRU Airport, de Cumbica.

No Afonso Pena, eram dois circuitos, de 5 km e 10 km. A Motiva divulgou a presença de cerca de 4.000 corredores, e a muvuca era mesmo grande, ainda mais quando se tem em conta que o movimento diário do terminal é de 15 mil pessoas, mas elas nunca chegam ali ao mesmo tempo.

Corredores com certa obsessão por quebrar recordes pessoais iriam se alegrar com a planura do circuito e com os 16 ou 17 graus da temperatura ambiente, suficientes para eu procurar freneticamente abrigo nas tendas da área de concentração nas horas mortas antes da largada.

Mas é mesmo o ambiente inusitado –e quem sabe o kit encorpado da prova, que integra o circuito de provas Track & Field, talvez o mais “premium” dos grandes circuitos nacionais– que chamava a atenção. O casal Amanda Conque e Andrey Farah, ambos de São José dos Pinhais, cidade do aeroporto, decidiu voltar ao Afonso Pena mesmo afastados há tempos das provas de corrida. “Esse ano optamos mesmo pela academia”, disse Amanda, que, diferentemente do colunista, parecia muito à vontade com a temperatura local.

É de se perguntar qual é a grande motivação da Motiva em armar essas corridas, algo que claramente não traz “ROI” (retorno sobre investimento) e exige uma expertise distinta daquela empregada na manutenção ordinária das operações aéreas.

“Engajamento com a comunidade” e “fortalecimento de marca” são as principais razões, como disse à coluna Ana Eliza Figueiredo, gerente-executiva de Pessoas e Comunicação da Motiva, que também destaca o efeito positivo entre os próprios trabalhadores da empresa e as “oportunidades de networking com parceiros estratégicos, como grandes marcas de apelo regional”.

Seja como for, correr em aeroportos parece ter vingado, e o projeto, ao menos na Motiva, segue. Público sempre há de haver: adaptando um velho ditado bastante mais cínico, ninguém nunca perdeu dinheiro por superestimar o interesse pelo extravagante.


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