Ancelotti dobra aposta em perfil ‘camaleônico’ pelo hexa – 23/05/2026 – Esporte


Carlo Ancelotti, 66, gosta de citar sua experiência no Carnaval do Rio de Janeiro ao falar sobre futebol, referindo-se ao misto de ginga, criatividade e disciplina necessário para o sucesso. O italiano, que chegou em 2025 à seleção brasileira, assistiu no sambódromo da avenida Marquês de Sapucaí à primeira noite de apresentações das escolas de samba do Grupo Especial deste ano e ficou impressionado.

O melhor desfile daquele domingo foi o da Imperatriz Leopoldinense, com “Camaleônico”, homenagem ao multifacetado cantor Ney Matogrosso. O título do enredo é também o adjetivo usado com frequência para classificar o perfil do atual técnico do Brasil, que adotou múltiplas versões de si mesmo para alcançar importantes títulos nos clubes por que passou.

Carletto é conhecido por ser adaptável, maleável, disposto a ajustar o modelo de jogo com base nos atletas que tem em mãos. Nas últimas décadas, enquanto o debate tático oscilava entre o trato com a bola de Pep Guardiola, a retranca de José Mourinho e a marcação por pressão de Jürgen Klopp, o italiano enfileirou troféus empregando todos esses estilos ou nenhum.

“Meu estilo é ganhar”, costuma dizer, em tom jocoso, um atrevimento brincalhão que parece absolvê-lo da descarada imodéstia.

O que os brasileiros aprenderam nos últimos dias foi que essa adaptabilidade não é para ele apenas uma questão de estratégia futebolística propriamente dita. Vai além das quatro linhas, e isso resultou na convocação de Neymar.

Até a semana anterior à faustosa divulgação dos 26 nomes chamados para a Copa, poucas das pessoas próximas ao treinador apostavam na presença do velho craque na lista. Nas condições físicas exibidas, ele não se encaixava no plano tático. No comportamento, não era visto como uma boa influência.

No entanto, diante do clamor popular e do apelo até de concorrentes –João Pedro, 24, fez campanha pelo ídolo e perdeu seu lugar para ele–, Ancelotti se adaptou.

“Futebol não é uma ciência exata”, afirmou, ao justificar a inclusão do atleta de 34 anos, que pouco jogou nas últimas temporadas e já está novamente lesionado. “Não se pode dizer que esta opinião é errada, que aquela é a correta. Na medicina, o médico pode dizer ou não o que é correto. No futebol, não é assim.”

Não faltou, claro, na torcida e na crítica especializada, quem tenha apontado que sua escolha foi ruim. Não faltaram também teorias conspiratórias ligando o chamado à recente renovação do contrato do treinador até a Copa de 2030 e à pressão de patrocinadores.

Ancelotti deu de ombros.

“Todo o mundo pode opinar de maneiras diferentes. No final, neste caso, sou eu quem tem que tomar a decisão. Por sorte, hoje ninguém pode dizer que o técnico se equivocou. É preciso esperar até o final de julho”, disse, levantando a sobrancelha esquerda, como lhe é característico.

O italiano, além de uma ímpar expressão facial, tem um currículo inquestionável como treinador. É o recordista de títulos na Liga dos Campeões –são cinco, sem contar os dois como jogador– e também o único vencedor em cada uma das cinco principais ligas nacionais europeias (Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França).

Como ele discorre em um de seus livros, “Quiet Lidership” (“Liderança Silenciosa”), de 2016, seu perfil como comandante se sustenta em três pilares: escuta, respeito e gestão de egos. O tripé ajuda a explicar por que Neymar estará nos Estados Unidos e por que o técnico desenvolveu algumas das melhores versões de jogadores de personalidades tão distintas como as de Kaká e Cristiano Ronaldo.

Na descrição do carnavalesco Leandro Vieira, da Imperatriz, Ney Matogrosso tem muitas formas, uma delas “um xamã tupiniquim ornado de miçangas, penas de papagaio e delírios quiméricos”. No carnaval de gosto duvidoso armado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) no dia da convocação, no Museu do Amanhã, no Rio, um tímido Ancelotti dançou conforme a música.

No fim, a esperança daqueles que torcem pelo Brasil é que a maleabilidade do italiano renda frutos e que a trilha do hexa seja o refrão da escola de Ramos. “Se joga na festa, esquece o amanhã”, pedia a nação leopoldinense, em versos que inevitavelmente desembocavam em “louca para ser campeã”.



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