A conta que vai sobrar para os nossos filhos


O Brasil encerrou 2025 com déficit primário de R$ 61,7 bilhões no governo central, um aumento real de 32,3% em relação a 2024 e o maior rombo desde 2023. As despesas avançaram 3,4% acima da inflação, enquanto as receitas cresceram apenas 2,8%, resultando no descumprimento da meta de déficit zero pelo segundo ano consecutivo. Considerando o pagamento de juros, o déficit nominal alcançou R$ 1,1 trilhão, equivalente a 8,34% do Produto Interno Bruto (PIB). Em março, a dívida bruta atingiu 80% do PIB, cinco pontos porcentuais (p.p.) acima do registrado no mesmo período do ano anterior. As projeções do Tesouro Nacional apontam para 83% em 2026, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que, pela sua metodologia, o País poderá superar a marca de 100% do PIB em 2027.

O desequilíbrio fiscal impacta diretamente o investimento privado. Com a Selic em 14,5% ao ano (a.a.), aplicações em renda fixa sem risco oferecem retorno mais atrativo do que atividades produtivas, configurando o conhecido efeito de crowding out. Nesse cenário, a taxa de investimento brasileira segue em modestos 17% do PIB. Estudo do Banco Mundial aponta que, em economias emergentes, cada p.p. de dívida acima de 64% do PIB reduz em 0,02 p.p. o crescimento potencial. Atualmente, o Brasil está 16 pontos acima desse limite.

A taxa de câmbio ainda não sofreu deterioração mais intensa porque as economias desenvolvidas também vivem uma desaceleração, o que reduz temporariamente a pressão sobre o real. Sem esse alívio externo, uma desvalorização cambial mais acentuada poderia agravar ainda mais o quadro macroeconômico.

Além disso, a expansão fiscal também contribui para o aumento do endividamento privado. Neste ano, o comprometimento financeiro das famílias brasileiras atingiu níveis historicamente elevados, estimulado pela combinação de juros altos, perda de poder de compra e crescente dependência do crédito. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) indicam que entre 79% e 80,4% das famílias estavam endividadas, o maior patamar da série histórica. Ao mesmo tempo, cerca de 30% estavam inadimplentes, com contas em atraso e dificuldade crescente para honrar compromissos financeiros. Informações do Banco Central (BC) mostram que o comprometimento da renda com dívidas ultrapassou 50%, pressionado pelo elevado custo do crédito e pelo uso intensivo de modalidades como cartão de crédito e empréstimos consignados.

A combinação entre aumento do custo da energia, expansão fiscal persistente e baixo nível de investimento mantém a inflação acima do centro da meta. Como consequência, intensifica-se um efeito regressivo que penaliza principalmente as famílias de menor renda, mais expostas aos gastos com alimentação, energia e transporte. Dados do IBGE divulgados em maio confirmam essa deterioração distributiva: o índice de Gini subiu de 0,504 para 0,511 em 2025, registrando a primeira piora em quatro anos. Enquanto os 10% mais ricos tiveram crescimento de renda de 8,7%, os 10% mais pobres avançaram apenas 3,1%. As receitas financeiras, favorecidas pelo ambiente de juros elevados, estão no centro desse movimento de concentração. O avanço da inadimplência e do endividamento tende a ampliar ainda mais os desajustes econômico e social.

O arcabouço fiscal aprovado em 2023 perdeu credibilidade. As chamadas “compensações autorizadas” se ampliam a cada bimestre, o limite de tolerância transformou-se, na prática, em novo piso de gastos e as despesas obrigatórias devem crescer 7,5% em 2026. Sem um ajuste fiscal consistente e crível, o BC encontra menor espaço para reduzir juros, o investimento permanece estagnado e o crescimento potencial da economia se enfraquece. A conta será transferida às próximas gerações, na forma de mais dívida, inflação persistente e orçamentos públicos cada vez mais engessados, comprimindo recursos antes mesmo de chegarem a áreas essenciais, como Saúde e Educação. Crescimento econômico e responsabilidade fiscal não são objetivos incompatíveis; a questão está em evitar que o custo da irresponsabilidade recaia sobre quem ainda nem nasceu.





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