62 anos do golpe militar: busca por mortos e desaparecidos continua
Após 62 anos da tomada do Estado Brasileiro por forças militares e civis, instalando uma das mais longevas ditaduras na América do Sul, a luta para resgatar a memória e a verdade dos fatos continua.
Segundo a Comissão Nacional da Verdade, que encerrou seus trabalhos em 2014, são 434 mortos e desaparecidos pelo regime brutal e autoritário. Desses, mais de 200 ainda não tiveram seus restos mortais encontrados e entregues às famílias.
Essa é uma das lutas de Ivan Seixas, ex-preso político, que teve seu pai assassinado pela ditadura militar, além de sua mãe e irmãs também presas e torturadas. Ivan reforça a importância de continuar as buscas pelos desaparecidos.
“Mesmo depois de décadas, né, já são cinco para seis décadas que aconteceram as mortes, ainda é possível encontrar os restos mortais de desaparecidos. Mas principalmente é fundamental que se faça o registro histórico de que essas mortes aconteceram e como aconteceram. E os restos mortais podem sim ser localizados, é uma mentira dizer que não vão ser localizados. Principalmente a esperança de encontrar é super importante para as famílias.”
Em 2024, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi retomada com a missão de continuar o reconhecimento das vítimas da ditadura militar.
Paralisada durante o governo anterior, a Comissão fez 30 anos de atuação no ano passando, quando identificou mais duas vítimas entre os restos mortais encontrados numa vala clandestina do cemitério de Perus, em São Paulo: Grenaldo de Jesus e Dênis Casemiro.
O marinheiro Grenaldo de Jesus foi perseguido por lutar contra a ditadura e acabou assassinado dentro de um avião em Congonhas. Já Dênis Casemiro era operário e militante da Vanguarda Popular Revolucionária. Ele foi preso e torturado no DOPS, na capital paulista.
Para a comissão, a descoberta dos corpos de Grenaldo e Dênis mostra a importância da continuidade dos trabalhos e a responsabilidade do Estado com a verdade dos fatos.
A Procuradora da República e presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga, destaca que ainda é preciso abrir os arquivos militares para dar uma resposta para a sociedade.
“Até hoje a gente não tem uma abertura completa desses arquivos, apesar de muitos documentos já terem sido revelados, já estarem nos arquivos públicos, a gente não tem a versão definitiva sobre as circunstâncias de muitas das mortes e os locais de enterro de corpos. Então acho que isso é uma falha ainda muito grande do sistema de justiça brasileiro, do poder executivo, de ainda não ter dado essas respostas definitivas para as famílias de mortos e desaparecidos políticos.”
Elucidar os assassinatos dos militantes que participaram da Guerrilha do Araguaia, em 1973, no estado do Tocantins, é um dos grandes desafios para a memória do período. A professora Victória Grabois perdeu o pai, Maurício, o irmão, André, e o companheiro Gilberto Olímpio, que participavam do movimento revolucionário. Hoje, aos 82 anos, ela diz não ter mais esperança, mas que é preciso lutar contra o silenciamento.
“A memória que meu pai foi um grande homem, é um homem que deu o seu bem maior que era a sua vida, né, que levou o seu filho junto em prol da liberdade do Brasil e da democracia. Quero que abra os arquivos e eu quero que digam onde mataram, como mataram, quando mataram, entendeu? Eu luto porque tem que lutar, mas a minha esperança… eu não posso parar. O que eu puder fazer para divulgar a memória, sabe, acabar com esse silenciamento eu faço, mas esperança eu não tenho mais.”
Uma das principais ações da Comissão hoje é a retificação dos atestados de óbitos das vítimas da ditadura, apontando que as mortes foram de responsabilidade da atuação autoritária do Estado brasileiro.
Além desses militantes políticos reconhecidos como vítimas da ditadura militar, a Comissão Nacional da Verdade ainda estima que cerca de 1.200 camponeses e 8.300 indígenas também foram vítimas da violência do regime autoritário.
A presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga, afirma que o colegiado ainda enfrenta obstáculos legais para avançar no reconhecimento destas outras milhares de vítimas pelo Estado brasileiro.
*Com colaboração de Luiz Claudio Ferreira